Carlos Drummond de Andrade
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
À primeira vista, esse poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) não impressiona muito, mas é simplesmente genial.
Comecemos pelo título. O dicionário traz três acepções para a palavra áporo: é um inseto, uma situação difícil e também uma espécie rara de orquídea. Temos, então, um áporo (inseto) que está em um áporo (situação difícil) e se transforma em áporo (orquídea).
Agora vem o melhor. Dissequemos o ponto central do poema, que é o inseto. A palavra vem do latim insectum, cujo radical é sec e indica que os insetos possuem corpo segmentado (imagine uma formiga e seu corpo compartimentado, por exemplo). No português temos a palavra inseto, cujo radical portanto é se.
A seguir, tomemos o radical se e listemos todas as sílabas que têm afinidade sonora com ele: si, ce, ci, ze, zi. Consideremos também o seu inverso es e sílabas afins: es, is, ez, iz, ex, ix.
Vamos então voltar ao poema e procurá-las:
Um inSEto cava
cava SEm alarme
perfurando a terra
SEm achar EScape.Que faZEr, EXausto,
em paÍS bloqueado,
enlaCE de noite
raIZ e minério?eIS que o labirinto
(oh razão, mIStério)
prESto SE dESata:em verde, soZInha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-SE.
Observe como na primeira estrofe o radical se aparece "aprisionado" atrás de uma barreira de palavras. Nas duas estrofes seguintes, ele começa sua metamorfose em ze, ex, is, ce, iz e es. Na última, sofre a transformação final e liberta-se na palavra forma-se, na qual a sílaba brota livre, como uma flor na ponta do caule. Forma-se verde como a esperança e antieuclidiana, desafiando toda a lógica.
O poema dá margem a várias interpretações. O áporo-inseto pode ser o cidadão oprimido pela ditadura no "país bloqueado", silenciosamente tramando a libertação na clandestinidade, "no enlace de noite, raiz e minério". A linha "presto se desata" sugere isso na alusão ao sobrenome do revolucionário Luís Carlos Prestes.
O áporo-inseto também pode ser o poeta que enfrenta o desafio da página em branco e finalmente logra escrever o poema. O texto vale-se de uma corruptela da corriqueira expressão "sem alarde" para acomodar "sem alarme", homenageando assim o poeta francês Mallarmé.
Também há uma discussão sobre esse poema na Wikipedia.







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